“O tempo é contínua cisão e não descansa nunca: se reproduz e se multiplica ao separar-se de si próprio. A cisão não se cura com o tempo e sim com algo ou alguém que seja não-tempo.
Cada minuto é o punhal da separação – como confiar nossa vida ao punhal que nos degola? O remédio está em encontrar um bálsamo que cicatrize para sempre essa contínua ferida que nos afligem as horas e os minutos. Desde que surgiu sobre a Terra – ou porque foi expulso do paraíso ou porque é um momento da evolução universal da vida – o homem é um ser incompleto. Nasce e logo foge de si mesmo. Aonde vai? Anda em busca de si próprio e se persegue sem cessar. Nunca é ele e sim o que quer ser, o que se busca; e ao se alcançar, ou acreditar que se alcançou, desprende-se novamente de si, desaloja-se, e prossegue sua perseguição. É o filho do tempo. E mais: o tempo é seu ser e sua doença constitucional. Sua cura só pode estar fora do tempo [...].
Não há saída? Sim, há: em alguns momentos o tempo se entreabre e nos deixa ver o outro lado. Estes instantes são experiências de conjunção do sujeito e do objeto, do eu sou e você é, do agora e sempre, do mais além e do aqui. Não são reduzíveis a conceitos e só podemos a elas aludir com paradoxos e com as imagens da poesia. Uma dessas experiências é a do amor, na qual a sensação se une ao sentimento e ambas ao espírito. É a experiência do total estranhamento: estamos fora de nós, lançados diante da pessoa amada; é a experiência da volta à origem, a esse lugar que não está no espaço e que é nossa pátria original. A pessoa amada é ao mesmo tempo, terra incógnita e casa natal; a desconhecida e a reconhecida [...] O amor suprime a cisão.”
Octavio Paz
(A dupla chama: Amor e erotismo)
